12 de outubro de 2026 - 4 min para saber
Ex-prefeito de Ibirité, William Parreira, acusa deputado estadual eleito João Santos de oferecer dinheiro e cargos públicos em troca de apoio eleitoral; Prefeitura nega irregularidades, enquanto explicações dos demais envolvidos seguem pendentes.Uma denúncia feita nas redes sociais pelo ex-prefeito de Ibirité, William Parreira (PRD), colocou sob questionamento a relação entre contratações na Prefeitura de Brumadinho e a articulação política que antecedeu as eleições de 2026. O alvo das acusações é o deputado estadual eleito João Santos, também identificado como João do Social, do Avante, que conquistou 69.333 votos.
VÍDEO PUBLICADO PELO JORNAL O TEMPO
Parreira afirma que antigos aliados teriam abandonado seu grupo político após receberem ofertas financeiras e oportunidades de trabalho na administração municipal de Brumadinho para apoiar a campanha do adversário. Segundo ele, a estrutura pública teria sido utilizada para fortalecer a candidatura do parlamentar.As declarações são graves, mas precisam ser tratadas pelo que são neste momento: acusações públicas que dependem de apuração e comprovação.Valores, cargos e nomes citados na denúnciaEm vídeo divulgado nas redes sociais, William Parreira afirma que teria ouvido de pessoas próximas os motivos pelos quais elas deixaram de trabalhar com ele durante a campanha. O ex-prefeito diz que pretende levar o caso ao conhecimento das autoridades e pede providências da Justiça Eleitoral.“Ele comprou pessoas em toda Minas Gerais”, declarou Parreira, alegando que contratações municipais teriam sido utilizadas para atrair lideranças de diferentes regiões do estado.Entre os nomes citados está Cleimara Suelem, que foi secretária de Governo de Ibirité durante a gestão de Parreira. Segundo o ex-prefeito, ela teria sido contratada pela Prefeitura de Brumadinho e informado que não precisaria comparecer presencialmente ao trabalho, pois se dedicaria à articulação política. Parreira também alega que ela teria recebido R$ 100 mil por fora. A acusação não foi comprovada nos materiais apresentados.O ex-prefeito cita ainda Alexandre, identificado apenas pelo primeiro nome nos relatos fornecidos. Segundo Parreira, ele teria trabalhado em seu grupo até o último mês da campanha e posteriormente passado a apoiar o adversário após uma suposta oferta de R$ 120 mil.Outro nome mencionado é Cleiton Sacolão. Parreira afirma que ele também teria sido alvo de uma negociação política e recebido R$ 30 mil.A denúncia inclui Geraldo Matos, ex-vereador de Ibirité por dois mandatos. Conforme o relato de Parreira, Geraldo foi contratado pela Prefeitura de Brumadinho em 1º de abril de 2026. O ex-prefeito afirma que havia um compromisso de apoio eleitoral entre os dois, posteriormente rompido após uma suposta oferta de R$ 50 mil e de um cargo na administração municipal.Os valores e as circunstâncias mencionados são alegações de William Parreira e não devem ser interpretados como fatos judicialmente comprovados.Contratações em Brumadinho entram no centro do debateAlém dos relatos sobre supostas ofertas financeiras, Parreira pede que sejam examinadas as contratações realizadas pela Prefeitura de Brumadinho nos meses anteriores às eleições.De acordo com os dados do Portal da Transparência citados no material fornecido, a administração municipal registrou apenas duas contratações entre janeiro e março de 2026. Em abril, no entanto, 36 pessoas teriam sido contratadas somente no dia 1º, segundo a informação de que outras 35 admissões ocorreram nessa mesma data, além da contratação de Geraldo Matos.No conjunto do período, os números apresentados apontam 112 contratações entre abril e julho.A concentração de admissões em determinadas datas levanta questionamentos que podem ser esclarecidos pela análise dos registros administrativos, das funções exercidas pelos contratados, das justificativas das nomeações e da efetiva prestação dos serviços.Os números, isoladamente, não comprovam compra de apoio político ou uso eleitoral da máquina pública. Para estabelecer eventual irregularidade, seria necessário verificar os documentos e demonstrar se houve relação entre as contratações e os apoios eleitorais alegados.Qual era a relação entre João Santos e a Prefeitura?Antes de deixar o cargo para disputar uma vaga na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, João Santos atuava como secretário municipal de Desenvolvimento Social na gestão do prefeito Gabriel Parreiras (PRD).O material fornecido também identifica João do Social como próximo do secretário municipal de Governo de Brumadinho, Guilherme Morais. William Parreira sustenta que essa proximidade com a administração municipal teria facilitado a articulação política e as supostas ofertas de cargos e recursos a lideranças de outras cidades.Segundo as acusações, a prática teria alcançado municípios de diferentes regiões mineiras, incluindo o Norte de Minas, o Sul de Minas, a Região Metropolitana e o Vale do Aço.Em uma das declarações reproduzidas pela reportagem da Itatiaia, Parreira afirmou que seria necessário verificar contratações feitas a partir de março para identificar pessoas de diferentes regiões do estado que teriam sido incorporadas à administração municipal.A extensão dessa suposta articulação, entretanto, não foi demonstrada de forma independente nos materiais apresentados.O que diz a Prefeitura de Brumadinho?Questionada sobre o caso, a Prefeitura de Brumadinho afirmou que as contratações seguem a legislação e que os servidores mencionados exercem normalmente suas funções, com controle de ponto e presença.Em nota, a administração municipal informou que os servidores citados trabalham nas Secretarias Municipais de Fazenda e de Administração, ocupando, respectivamente, os cargos de supervisor de área e chefe de setor.A Prefeitura também contestou as críticas relacionadas ao aumento de nomeações nos meses que antecederam as eleições. Segundo a administração, as contratações e exonerações são realizadas conforme as necessidades das secretarias, respeitando os critérios legais.A gestão acrescentou que está em seu segundo ano de mandato e passa por um processo de reorganização administrativa, com alterações em cargos de confiança para atender às demandas dos serviços públicos.A manifestação apresenta a versão oficial do município, mas os materiais fornecidos não incluem documentos individuais de cada contratação que permitam avaliar, de maneira independente, as circunstâncias específicas questionadas pelo ex-prefeito.João Santos e Guilherme Morais foram procuradosSegundo a reportagem da Itatiaia, João Santos e Guilherme Morais foram procurados para comentar as acusações, mas não haviam respondido até a publicação do material.No primeiro relato fornecido, João Santos informou que estava ocupado com a organização do futuro mandato e que retornaria com respostas sobre o caso. O espaço para manifestação foi mantido aberto.Também não foi possível estabelecer contato direto com Cleimara Suelem e Geraldo Matos, citados por William Parreira. O material não registra manifestações individuais de Alexandre ou Cleiton Sacolão.As informações disponibilizadas tampouco apresentam uma decisão judicial que confirme as acusações.Justiça Eleitoral: denúncia pública e apuração são coisas diferentesA repercussão do caso envolve uma questão central: a diferença entre denunciar publicamente uma suposta irregularidade e apresentar elementos capazes de demonstrá-la perante as autoridades.No material atribuído à Itatiaia, consta que, até o momento da publicação, o Ministério Público não havia recebido denúncia formal sobre compra de votos. Essa informação não permite concluir, por si só, que as acusações sejam verdadeiras ou falsas.O caso também exige distinguir eventuais irregularidades administrativas de possíveis ilícitos eleitorais. A existência de contratações públicas, mesmo quando concentradas em determinado período, não demonstra automaticamente que tenham sido realizadas para comprar apoio político.Para esclarecer os fatos, seria necessário examinar as admissões citadas, as atribuições dos servidores, os registros de frequência, as justificativas administrativas e os elementos que eventualmente relacionem as contratações às supostas ofertas eleitorais.Uma pergunta que permaneceJoão Santos foi eleito deputado estadual com 69.333 votos. William Parreira, que também disputou uma vaga na Assembleia Legislativa, afirma que perdeu antigos apoiadores em circunstâncias que considera irregulares e cobra providências das autoridades.De um lado, há acusações que envolvem valores elevados, nomes identificados e contratações públicas. De outro, a Prefeitura de Brumadinho sustenta que os procedimentos foram legais e que os servidores trabalham normalmente. As respostas individuais dos demais citados e uma eventual conclusão das autoridades não constam dos materiais fornecidos.A questão de interesse público, portanto, permanece: as contratações questionadas decorreram de necessidades legítimas da administração ou houve alguma relação indevida com a disputa eleitoral?A resposta não pode ser determinada apenas por declarações políticas. Depende de documentos, evidências e apuração pelas autoridades competentes.Até que isso ocorra, a denúncia deve ser investigada com seriedade, sem transformar suspeitas em condenações antecipadas e sem descartar questionamentos legítimos sobre a utilização dos recursos públicos.
