No dia dedicado aos mestres, talvez a homenagem mais necessária não seja distribuir flores, mas fazer perguntas que muitos preferem evitar.Todo 15 de outubro é a mesma cerimônia: discursos emocionados, fotografias nas redes sociais, elogios à missão de ensinar e frases bonitas sobre o professor ser o construtor do futuro. Passada a data, porém, a realidade volta a entrar pela porta da sala de aula — muitas vezes sem pedir licença e sem trazer boas notícias.
Os resultados do PISA, avaliação internacional que mede o desempenho de estudantes de 15 anos em leitura, matemática e ciências, continuam expondo as dificuldades brasileiras. E diante desse cenário, uma pergunta precisa ser feita sem rodeios: se o professor é o responsável por ensinar, até que ponto ele pode se eximir da responsabilidade quando o aluno não aprende?
É verdade que governos devem oferecer estrutura, materiais, formação e condições dignas de trabalho. É verdade que as famílias precisam participar da educação dos filhos. Mas nenhuma dessas responsabilidades elimina a do professor. Afinal, é ele quem conduz o processo pedagógico diariamente, escolhe estratégias de ensino dentro de sua autonomia profissional, acompanha a aprendizagem e identifica as dificuldades que precisam ser superadas.
Não se pode exigir que o professor resolva sozinho todos os problemas da educação brasileira. Mas também não se pode transformar a docência em uma atividade sem responsabilidade pelos resultados.
E aqui começa uma discussão que merece ser enfrentada.
Durante décadas, determinadas correntes pedagógicas ganharam espaço nas universidades, nos cursos de formação docente e nas políticas educacionais. Entre elas está a proposta de Paulo Freire, que defendia uma educação dialógica, crítica e relacionada à realidade social dos estudantes. Seus admiradores consideram essa abordagem uma contribuição importante para a educação; seus críticos questionam a influência que ela exerceu sobre a formação pedagógica brasileira e apontam o risco de a discussão política ocupar espaço excessivo diante da necessidade de ensinar conteúdos fundamentais.
A crítica merece ser feita, mas com precisão: não há fundamento para afirmar simplesmente que Paulo Freire criou um método de idiotização. O debate sério está em avaliar se as práticas adotadas nas escolas, inspiradas ou não em suas ideias, têm produzido aprendizagem efetiva. Nenhuma teoria pedagógica deveria estar acima dos resultados, da análise crítica ou da obrigação de ensinar.
Uma pedagogia pode ter boas intenções e, ainda assim, precisar ser revista quando não entrega aquilo que promete.
O mesmo princípio vale para a presença de pautas identitárias, debates sobre sexualidade e questões de grupos sociais no ambiente escolar. A escola precisa tratar os estudantes com dignidade, prevenir a discriminação e respeitar os direitos de todos. Mas também precisa estabelecer prioridades claras. O tempo escolar é precioso, e a aprendizagem da leitura, da escrita, da matemática e das ciências não pode ficar em segundo plano diante de disputas ideológicas ou de atividades que não contribuam adequadamente para a formação acadêmica.
Discutir esses temas não significa, por si só, abandonar o ensino. A questão é saber como são abordados, com qual finalidade pedagógica, em que faixa etária e com que equilíbrio em relação ao currículo. A escola deve formar cidadãos capazes de pensar, não espectadores obrigados a repetir as convicções de seus professores, gestores ou governantes.
E pensar exige conhecimento.
Não existe pensamento crítico consistente sem capacidade de ler, interpretar, calcular, comparar informações e distinguir fatos de opiniões. O aluno que não compreende um texto dificilmente conseguirá avaliar com profundidade uma tese política, científica ou filosófica. A autonomia intelectual, tão celebrada nos discursos educacionais, depende justamente do domínio das ferramentas básicas do conhecimento.
Por isso, causa preocupação ver estudantes avançando na escolaridade sem consolidar competências essenciais. Aprovar não é necessariamente ensinar. Matricular não é garantir aprendizagem. Distribuir diplomas não é formar cidadãos preparados.
O PISA não mede toda a qualidade de um sistema educacional, tampouco define a inteligência de uma criança. Mas seus resultados constituem um alerta que não pode ser descartado por conveniência ideológica. Quando o desempenho é insuficiente, é preciso investigar as causas, comparar métodos, corrigir falhas e cobrar resultados.
E a cobrança precisa alcançar todos os envolvidos.
Governantes devem responder pelas políticas adotadas e pelos recursos investidos. Gestores precisam acompanhar o desempenho das escolas. Famílias devem participar da formação dos filhos. E professores precisam assumir a responsabilidade profissional de ensinar, avaliar, corrigir e buscar estratégias melhores quando a aprendizagem não acontece.
Valorizar o professor não significa conceder-lhe imunidade à crítica. Significa reconhecer a importância de sua missão e, justamente por isso, exigir que ela seja cumprida com competência, compromisso e seriedade.
O Brasil não precisa escolher entre respeitar os professores e cobrar resultados. Precisa fazer as duas coisas.
Neste Dia do Professor, portanto, fica uma sugestão: menos homenagens automáticas e mais compromisso com aquilo que realmente importa. Que a sala de aula volte a ser um espaço em que o conhecimento tenha prioridade, o mérito seja reconhecido, a disciplina seja respeitada e as ideias possam ser debatidas sem substituir o conteúdo que os estudantes precisam aprender.
Porque o professor não é o único responsável pelos problemas da educação brasileira, mas tampouco é um mero espectador deles.
Quem assume a missão de ensinar precisa assumir também o compromisso de fazer o aluno aprender.
E talvez a melhor homenagem que possamos prestar aos mestres seja garantir que, no futuro, nossos estudantes não sejam lembrados pelas dificuldades que a escola deixou de corrigir, mas pelo conhecimento que ela foi capaz de lhes oferecer.
Feliz Dia do Professor. Que nunca faltem respeito aos mestres, liberdade para pensar e coragem para reconhecer que, quando a educação falha, não basta procurar culpados: é preciso recuperar o compromisso de ensinar.