| POLICLÍNICA CENTRAL/VGA - REPRODUÇÃO/ILUSTRAÇÃO |
09 de março de 2026 - 4 minutos para saber
Em meio às inúmeras dificuldades enfrentadas pelo sistema público de saúde em nossa cidade, causa estranheza a proposta de um vereador que defende a criação de um “atendimento especial”, com profissionais supostamente capacitados, voltado exclusivamente ao público LGBTQIA+.
A ideia, à primeira vista, pode soar como uma tentativa de inclusão. No entanto, quando analisada com serenidade e responsabilidade administrativa, levanta uma questão fundamental: é realmente esse um problema da nossa rede de saúde?
A realidade que a população enfrenta diariamente é bem diferente. Faltam médicos, exames demoram meses para serem realizados, consultas especializadas são escassas e os pacientes aguardam horas por atendimento básico. Em diversas unidades, profissionais trabalham sobrecarregados e a estrutura é claramente insuficiente para atender a demanda da população.
Diante desse cenário, parece no mínimo deslocado discutir a criação de estruturas ou atendimentos segmentados quando o próprio sistema já luta para oferecer o mínimo a todos, com destaque especial para os idosos e as crianças que são verdadeiramente um grupo diferenciado e cuja medicina reconhece e estabelece as especialidades nas devidas faculdades.
Do ponto de vista fisiológico e clínico, um paciente deve ser atendido de acordo com sua condição de saúde, sintomas e diagnóstico — não pela sua orientação sexual. Um médico bem formado e ético deve tratar qualquer pessoa com respeito, dignidade e competência, independentemente de quem ela seja.
A medicina não funciona por categorias sociais, mas por critérios técnicos e científicos.
Um coração, um pulmão ou um exame de sangue não mudam de acordo com a orientação sexual de quem procura atendimento.
Isso não significa ignorar o respeito às diferenças ou desconsiderar que todos merecem tratamento digno. Pelo contrário: o verdadeiro avanço é garantir um sistema de saúde eficiente, humano e acessível para todos, sem distinção.
Criar atendimentos “especiais” pode acabar reforçando uma divisão que não resolve o problema central: a precariedade do próprio sistema. Antes de pensar em segmentações, o poder público deveria concentrar esforços em algo muito mais urgente — fortalecer a estrutura da saúde, ampliar o número de profissionais, reduzir filas e garantir atendimento de qualidade para toda a população.
A saúde pública precisa de soluções práticas e universais. O cidadão que espera por consulta, exame ou cirurgia não quer saber de rótulos ou categorias. Ele quer — e tem direito — a algo muito mais simples: ser atendido com eficiência, respeito e rapidez.