terça-feira, 20 de janeiro de 2026

UTOPIA BURGUESA


Foto: A burguesa família Pellegrini na praia em 1956

20/01/2026 | 4 min para saber

Lá nos anos 70, num cine-clube em Londrina, vimos num documentário um operário dizer-se feliz porque, com bom salário, podia ir com a família comer em pizzaria. O pequeno público reagiu maldizendo aquele “desvio” burguês do operário, pensando em pizza em vez de pensar em revolução; depois foram todos comer pizza num restaurante. Faz lembrar aquela professora doutora de universidade, portanto com ótimo salário, em palestra dizendo ter ódio da burguesia...
Essa repulsa esquece que, antes da burguesia, não existia democracia para expressar visão diferente da reinante (literalmente: reis e senhores feudais mandavam e dissidentes podiam ser mortos sem apelação, pois antes da burguesia também não havia Justiça).
Também não havia livros, ou havia um só livro no mundo ocidental, a Bíblia, em poucas cópias escritas à mão nos mosteiros – até que o burguês Gutemberg inventou a tipografia e surgiram os livros. E também o comércio e a indústria foram turbinados pela burguesia, que se tornou assim a maior geradora de empregos e de renda da História.
Copérnico era um pré-burguês pois, lá no século 15, como cônego pôde estudar os céus e ver que a Terra é que gira em torno do Sol e não o contrário, assim inaugurando as ciências modernas. Também era pré-burguês Cristóvão Colombo, que se orientou pelo empreendedorismo típico da burguesia, embora, além da descoberta da América, tenha sido também o precursor dos crimes dos europeus contra os ameríndios.
Se Marx não fosse burguês, não teria escrito O Capital, pois não teria acesso a livros como os proletários, para quem reivindicou o domínio do mundo através da ditadura do proletariado. E seu colega de estudos, Engels, conheceu bem a miséria do proletariado só depois de dirigir uma das fábricas da própria família.
Também seriam de origem burguesa quase todos os líderes de revoluções ditas proletárias, menos Stalin, de origem camponesa, que porém mantou matar todos os outros dirigentes da revolução russa. Na Revolução Cubana, os líderes foram o advogado Fidel Castro e o médico Ernesto Guevara, e, como nos outros países socialistas, seu governo formou burguesia dirigente e privilegiada (como na Alemanha Oriental onde vi supermercados “do povo”, mal abastecidos, e os “do governo”, super supridos).
Além de fornecer líderes para revoluções, a burguesia, de Cervantes a Picasso, gerou criadores que revolucionaram as artes. Decerto mais artistas populares surgiriam se as massas trabalhadoras tivessem mais condições de estudo e de vida cultural. Mas a vocação artística, para se realizar, exige vontade e empreendimento pessoal, essência da burguesia. Entretanto negando isso, hoje floresce o culto à marginalidade nas artes, com heróis fracassados, negativistas crônicos, com visão de mundo pessimista ou niilista, como o sujeito que pendura banana numa parede dizendo que é arte.
Nasci de pai barbeiro e mãe dona de pensão, trabalhadores porém não apenas braçais porque empreendedores, e com trabalho tornaram-se burgueses. Assim espero que seja possível para todos um mundo só de burguesia, mesmo sabendo que decerto isso é utopia.