quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

SILAS SAMPAIO: UM GÊNIO DA COMUNICAÇÃO QUE PROPAGOU A RÁDIO CLUBE DE VARGINHA COM UMA DAS VOZES MAIS BONITAS QUE JÁ HOUVE NO PAÍS

14/01/2026  | minutos para saber


Afilhado dele, amigo próximo, convivi diariamente por um bom tempo com esse homem: Silas Sampaio Moraes, um gênio. Poucos locutores e apresentadores superstars de Rádio e de Televisão conheci, com o estofo, o caráter, o lastro, a retaguarda, a qualidade artística, o preparo, o desempenho, a cultura do Silas - e olhe que escrevi para os melhores do país: Flavio Cavalcanti, Sergio Chapelin, Murillo Neri, Cid Moreira, Walter Forster...
ARTISTA POR VOCAÇÃO
Atencioso, receptivo, sempre muito bem humorado, dono de fino senso de humor - contava piada como ninguém. Foi inesquecivelmente brilhante em seu desempenho no Cidade Contra Cidade (1967), do Silvio Santos, elogiado no ar, merecidamente, pelo próprio Sílvio.
Tinha o dom da boa vontade e mantinha as portas abertas da Rádio Clube de Varginha (na rua Antônio Carlos, em cima do Bar Capitólio) a quem por lá aparecesse, sem distinção. Equilibrado administrador, apaixonado por rádio, dirigiu a ZYB2 por toda a vida.
PUBLICITÁRIO IMBATÍVEL
A Rádio de Varginha tinha audiência esmagadora, ouvida nas ruas, casas, lojas, bares, escritórios, salões de cabeleireiros, por onde a gente andasse. Possivelmente, em razão disso, o Silas era muito procurado por anunciantes: Casa Navarra, Casa Humberto Conde, Palácio do Lar, Maracanã, Pernambucanas, Casa do Barulho, Guaraná 507, Frigorífico Santa Cruz, Papelaria Imperial, Gruta da Sorte, Loja 33, Viação Santa Teresinha, só para citar alguns.
Era ele quem redigia os textos publicitários, alguns tão bons que o povo decorava. Era consenso entre os clientes: valia a pena anunciar, os persuasivos anúncios do Silas vendiam o produto."Se Dubon foi servido, o melhor café foi bebido"; "Digo e repito: Rádio Laboratório São Benedito"; "É mais fácil um burro voar do que a Gruta da Sorte falhar"; "Compre no Palácio do Lar e faça do seu lar um verdadeiro palácio"; "Dezenas, centenas, milhares de pessoas utilizam-se dos bons serviços da Drogaria e Farmácia Nacional".
Tudo criação do Silas. Eram muitos. Todo mundo queria ter seu produto no rádio; semeava prosperidade, lá não se sabia o que era crise. Alguns patrocinadores faziam até questão de ter o nome atrelado aos programas como o Repórter Tyresoles., apresentado por Wellington Venga: "e agora, pingamos um ponto final no Repórter Tyresoles, prometendo voltar amanhã neste mesmo horário".
CRIATIVIDADE À FLOR DA PELE
Era também o Silas quem estruturava toda a programação da emissora. Anunciava nascimento de bebês, dava notas de falecimento, tinha o Carnê Social para parabenizar aniversariantes... Criou A Hora da Amizade, que injetava um bom dinheirinho no faturamento, já que os ouvintes pagavam para oferecer música à namorada, a um familiar ou amigo. Sucesso absoluto.
Criou Rádio Variedades B2, programa de audiência maciça entre os varginhenses, nas noites de quinta-feira, em que Zé Picuá abria às 7 da noite com O Pagode do Zé Picuá, com a participação frequente de Ribeirão, Corguinho e Paulinho.
Em seguida, Astromania, com os calouros do Galvão Conde. Mauro Teixeira comandava Você É Quem Manda, conhecida brincadeira em que a "vitima" vai para uma cabine indevassável onde não escuta nada e tem que responder SIM ou NÃO quando a luzinha acende, e no fim pode sair ou com o melhor prêmio da noite ou, como já vi, um copo de groselha.
No grande final, 9 da noite, José Braga Jordão ou o próprio Silas, (intercalavam), apresentava em Coisas Nossas os cantores consagrados da emissora: José Bento Reis, Adriano Pontes, Lila Lopes, Antonio Otaviano, Antônio Borba, Marisa Ponte, Iracema Spinelli, Oswaldo Tozzi.
O auditório da Rádio ficava apinhado para aplaudir nossos prestigiados artistas, havia até retratos deles à venda na casa Humberto Conde, tirados pelo Zambotti.
Vez ou outra - era um acontecimento!-, atrações especialíssimas da Rádio Nacional do Rio de Janeiro: Ângela Maria, Cauby Peixoto, Nélson Gonçalves, Olivinha Carvalho, Lana Bittencourt, Emilinha Borba, Dalva de Oliveira. Cantavam na Rádio, era apresentação no Capitólio e show à meia noite em baile de gala no Clube de Varginha.
VARGINHA EM FOCO
Nenhuma criação do Silas, porém, foi tão importante quanto Varginha em Foco, provavelmente um dos programas locais de maior audiência do rádio brasileiro, companheiro inseparável das famílias, às 11h30, na mesa de almoço - ou "a qualquer momento em edição extraordinária", quando deixava a cidade em polvorosa, assim que soava o inconfundível prefixo musical tocado por estridentes clarins.
Em Varginha em Foco, Silas criou uma linguagem personalíssima, com sinônimos e imagens que ficariam conhecidas do grande público: água era 'precioso líquido'; ladrão; 'amigo do alheio'; hospital: 'nosocômio'; futebol: 'esporte bretão'; campo do Flamengo: 'tapete verde da rua Paraná'.
Varginha em Foco era comandado eventualmente por Galvão Conde, outro marco da radiofonia varginhense, que anos depois fundaria a Rádio Vanguarda. Também dele falaremos futuramente.
OLHO CLÍNICO PARA TALENTOS
Silas, que ao bater os olhos sabia quem tinha e quem não tinha talento, foi um dos maiores incentivadores de outro gênio, Zé Picuá, o ídolo caipira do rádio da época, só comparável a Edgard de Souza, em Curitiba ou ao Zé Bettio, em São Paulo, que no reinado do Zé Picuá ainda era criança.
Ideia também do Silas, um locutor juvenil de nome Gilberto de Mello Lima foi igualmente lançado por ele em um programa bem original que criou para a criançada, Petizada Alegre, transmitido diretamente do Clube Infantil Pio XII, na Deputado Ribeiro de Resende. Gilberto Lima, com sua voz bem trabalhada, viria a ser o narrador principal do Fantástico, e com seu jeitão irreverente, líder de audiência nas rádios Piratininga e Tupi de São Paulo, e Globo no Rio. Falaremos dele em breve.
Petizada Alegre tinha um elenco infantil muito querido pela garotada, que, inclusive recebiam cartas e mais cartas, como os Artistas-Gente-Grande: eram Silvinho de Brito, Jorginho Miranda, Elzinha Erbst, Irmãos Paiva, Márcia Maria Bregalda, Ione Maria Ferreira, Marilda Batista, Dinho Batistão - e além do Gilberto Lima, havia outros locutores mirins, Olguinha Braga e Tadeu de Paula.
RÁDIO NA RUA
Jogos de futebol, comícios políticos, carnaval de rua e em clubes sociais, audições de piano da professora Adrienne Diniz Vallim, chegada do Rei Momo, descida do Papai Noel, Silas, microfone na mão, estava em todas, debaixo de chuva, debaixo de sol. Fazia um suspense danado e a gente ficava aguardando, aguardando, até a hora que o Silas quisesse que eles chegassem.
ECLÉTICO, PEGAVA NO PESADO
Sampaio (como gostava de ser chamado) intensamente batalhou pela ampliação do sinal de emissão da ZYB-2, conseguindo multiplicar em muito sua potência. Era ele quem treinava os novos locutores, ainda verdes, e orientava os ótimos veteranos, como Afrânio de Paula, Wellington Venga, Nilson Lemos, Joel Salles, Otacílio Viana, Ismail Teixeira.
Era igualmente ele quem ensinava os operadores de som, como Sebastião Casanos, Lázaro Silva, Evandro Vinícius. Gravava propaganda no gravadorzão Grundig e depois, ele mesmo, copiava mecanicamente o áudio para os antigos discos de acetato. Cabia também ao Silas catalogar (e periodicamente atualizar) o fichário da discoteca, uma das mais completas do país.
Era ele quem corria atrás do José Silvino, técnico de eletrônica dos melhores, quando qualquer equipamento pifava.
COMPOSITOR E PADRINHO
Compositor de ótimas canções, que cantava só para os amigos (e em pouco tempo modestamente esquecia), o Silas foi o responsável pelo nascimento da dupla dos compositores Silvio Brito e Marcos Resende. Tinha eu 16 anos e mostrei ao Silas uma marchinha rancho, que escrevi de brincadeira com Pedro Gomes da Silva, amigo do meu pai. O Silas gostou.
Pouco tempo depois, no escritório da rádio, aparece Silvio Brito, dos Apaches (então, com a mesma idade), que também foi mostrar ao Silas uma música composta por ele, e comentou que precisava de alguém para fazer a letra. O Silas me apontou: achou! O Silvinho era meu amigo de infância e daí nasceu uma parceria de muitas canções, entre elas "Faça O Que Você Quiser", a primeira música gravada por Antônio Marcos em início de carreira, no ano de 1967.
Tempos depois, Silvio Brito e eu faríamos juntos um programa musical semanal na Rede Tupi de Televisão, A Grande Parada, Ele, apresentador. Eu, produtor musical e redator. (No rodapé, vou deixar o link para o prefixo que compusemos, no YouTube).
ESTRELAS DA GENTE
Varginha não pode se queixar em matéria de gente bacana. Alguns entre nós tivemos o privilégio de conhecer Renato Fioravante, Joanny Henrique de Moraes, Pedro Guido Duarte, Célio Segundo Salles, José Braga Jordão, Cícero Acayaba, José de Souza Pinto, Galvão Conde, Mauro Teixeira, Adrienne Diniz Vallim, Oscar Pinto, Aurélia Rubião, Oneida Alvarenga, Gilberto Lima, Claudio Roditi, Antônio Borba, Sílvio Brito, Petrônio Gontijo, por exemplo. Cada um com o brilho de uma estrela especial. De todos falaremos muito aqui, pode ter certeza. Com a mesma alegria, prazer, devoção e reverência das quais lancei mão para hoje falar de Silas Sampaio Moraes.
*ARTIGO PUBLICADO NA PÁGINA 'MEMORIAL DE VARGINHA'/MARCOS RESENDE