A resposta é que o Islã nunca foi um bloco monolítico.
Desde o século VII, após a morte do profeta Maomé, a disputa sobre quem deveria liderar a comunidade muçulmana dividiu os fiéis em dois grandes ramos: sunitas e xiitas. Os sunitas defendiam que o líder (califa) deveria ser escolhido entre os companheiros do profeta. Já os xiitas acreditavam que a liderança cabia exclusivamente à família de Maomé, começando por Ali, seu genro.
Essa divergência inicial transformou-se, ao longo dos séculos, em diferenças teológicas, jurídicas e políticas profundas.
O Irã é majoritariamente xiita e se tornou, desde a Revolução Islâmica de 1979, o principal polo político do xiismo no mundo. Já grande parte dos países vizinhos é de maioria sunita.
Mas a divisão não é apenas religiosa: ela é estratégica. A Arábia Saudita, por exemplo, vê o Irã como rival direto pela liderança regional. A disputa entre os dois países influencia conflitos no Iêmen, na Síria e no Líbano.
Ao mesmo tempo, muitos desses países sunitas mantêm alianças militares com os EUA e abrigam bases americanas em seu território. Quando o Irã ameaça ou ataca alvos ligados a essas bases, não está apenas confrontando vizinhos islâmicos — está disputando influência com Washington.
E aqui está outro ponto importante: nem todo país sunita é automaticamente inimigo do Irã. A política internacional é mais pragmática que a teologia. A própria Turquia, majoritariamente sunita, mantém relações complexas com Teerã, ora cooperando, ora competindo. O Iraque, embora tenha maioria xiita, também abriga diferentes correntes e vive sob forte influência tanto iraniana quanto americana.
Portanto, não existe uma “unidade islâmica” automática porque o Islã, como o cristianismo, não é um bloco único. Há escolas, interpretações, interesses nacionais e projetos de poder distintos.
Imagem meramente ilustrativa feita com i.a