Durante a pandemia, a imprensa brasileira não apenas cobriu decisões autoritárias, mas ajudou a construir o regime de exceção em nome da "ciência"
Por que a imprensa brasileira segue ignorando o escândalo do diário de Fauci?
A resposta curta é simples: não é distração, não é falta de espaço e não é porque o assunto seja americano demais. É porque noticiar Fauci obriga a militância de redação a admitir que foi instrumento. Durante a pandemia, a chamada imprensa brasileira não cobriu um regime de exceção. Ela ajudou a construí-lo.
Reconhecer agora que os chamados “negacionistas” estavam certos sobre uma parte relevante das coisas significaria reconhecer o próprio papel na máquina. E isso ninguém faz de graça.
Em 29 de julho, o senador Rand Paul divulgou mais de mil páginas do diário pessoal de Anthony Fauci. No mesmo dia, Fauci foi depor no Senado americano e invocou a Quinta Emenda, que protege o cidadão contra a autoincriminação. O homem que recomendou lockdown, máscara e vacina para o mundo inteiro se recusou a responder ao Senado do próprio país alegando que responder poderia incriminá-lo.
E não foi só isso. Antes de deixar o cargo, Joe Biden concedeu a Fauci um indulto preventivo, antes de qualquer acusação formal. Esse é o tamanho do caso.
Agora repare no que virou notícia no Brasil. A parte em que Fauci chama Trump de “adolescente detestável” ganhou destaque. A parte que atinge a autoridade sanitária foi empurrada para a checagem contra quem ousou falar dela. O que atinge Trump vira reportagem. O que atinge o regime sanitário vira fiscalização contra o crítico.
O caso brasileiro que resume tudo é o de Nísia Trindade. Ela veio a público acusar Nikolas Ferreira de mentir, dizer que não permitiria que a desinformação apagasse o que a ciência comprovou e sustentar que quem negou a ciência colocou a população em risco. Mas Nísia não é uma cientista neutra pairando acima da política. Presidiu a Fiocruz de 2017 a 2022, foi ministra da Saúde de Lula até fevereiro de 2025 e, em 1º de agosto, oficializou sua candidatura a deputada federal pelo PT.
Ou seja: é candidata do partido que governa, defendendo a própria gestão.
E foi ela, como presidente da Fiocruz, quem assinou em setembro de 2020 o contrato com a AstraZeneca para produzir aquela vacina no Brasil.
É aqui que entra Bruno Oscar Graf. Advogado, vinte e oito anos, de Blumenau. Tomou a primeira dose da AstraZeneca em agosto de 2021 e morreu três dias depois do início dos sintomas, de trombose do sistema nervoso central com plaquetopenia. O nexo causal foi reconhecido em boletim oficial da vigilância epidemiológica de Santa Catarina.
A mãe dele, Arlene, denunciou o caso. Antes de o boletim sair, foi chamada de mentirosa pela imprensa e teve a conta derrubada no Twitter.
Agora repare na cronologia. O risco já estava na bula desde abril de 2021, por exigência da própria Anvisa: possibilidade de casos muito raros de coágulos associados à trombocitopenia. A página da Anvisa registra atualizações e solicitações de alteração de bula em março, abril e julho daquele ano.
O Estado sabia. O Estado escreveu. E, quando uma mãe de Blumenau disse em voz alta o que o próprio Estado já tinha impresso na bula, ela virou inimiga pública.
Não foi a ciência que ela contrariou.
Foi a campanha.
É disso que se trata.
Os diários de Fauci entram exatamente nesse ponto. Em 13 de agosto de 2022, ele registrou ter pressionado o CDC a recuar de uma declaração sobre a perda de eficácia das vacinas contra infecção e transmissão. O problema, segundo o próprio registro, não era simplesmente a falsidade da informação. Ele reconhecia que havia um grau de proteção, mas modesto e decrescente.
O ponto central era outro: divulgar aquela informação atrapalharia o esforço para incentivar a vacina bivalente e prejudicaria o Departamento de Justiça na defesa dos mandatos de vacinação.
Ou seja, a informação foi contida porque era inconveniente para uma política pública. Não porque fosse simplesmente falsa.
Esse é o escândalo.
A ciência foi tratada como campanha. A dúvida foi tratada como ameaça. A pergunta virou crime moral. A cautela virou negacionismo. A mãe que apontou um risco reconhecido pelo próprio Estado virou inimiga da saúde pública.
E nada disso foi um caso brasileiro isolado. No Reino Unido, mais de dezessete mil e quinhentas pessoas pediram indenização ao programa estatal de danos por vacina. Cento e oitenta e oito receberam. A maior parte dos casos aprovados estava ligada a coágulos associados à AstraZeneca.
Mas no Brasil, durante anos, o debate foi moralizado até o limite. Quem perguntava era assassino. Quem duvidava era obscurantista. Quem cobrava transparência era inimigo da ciência. Quem falava de efeito adverso era cúmplice da morte.
A questão nunca foi negar a eficácia da vacina.
A questão foi a proibição de perguntar.
Ciência não é compatível com censura. Uma tese que não pode ser contestada não é ciência. É dogma. E quem defende dogma não age como cientista. Age como sacerdote.
É por isso que a militância de redação não noticia Fauci, porque a notícia é sobre ela.
É sobre a imprensa que chamou prudência de crime. É sobre os checadores que transformaram vítimas em suspeitos. É sobre os jornalistas que não fizeram campanha para alertar sobre riscos já reconhecidos em bula, mas fizeram campanha para calar quem falava deles. É sobre um aparato inteiro que confundiu ciência com obediência.
E fica a pergunta que precisa ser repetida quantas vezes forem necessárias: Essa gente que faz campanha contra a desinformação e agora pede voto para deputado, governador e senador, já pediu desculpas à família dos que foram conduzidos à morte?
Uma vez.
Uma ÚNICA VEZ!
Enquanto a resposta for não, o discurso da ciência não é ciência. É defesa pessoal com jaleco.
POR Leandro Ruschel
