Foto: pjjones/istock.
26/07/2023
Disponível livremente em farmácias, sem necessidade de receita médica, o
paracetamol está entre os remédios mais consumidos de todo o mundo.
Para ter ideia, algumas estimativas apontam vendas de 49 mil toneladas desse medicamento ao ano nos Estados Unidos — o que significa 298 comprimidos por americano a cada 12 meses. No Reino Unido, a média é de 70 unidades desse fármaco por pessoa durante o mesmo período.
E o mais curioso dessa história é que, apesar de ser
conhecido há mais de um século, o paracetamol ainda está cercado de mistérios:
o mecanismo de ação dele ainda não foi completamente desvendado pelos
cientistas.
As evidências sobre a eficácia dessa medicação para diversos incômodos
também variam — em alguns casos, como a dor na lombar, os efeitos do comprimido
ou das gotas não são superiores aos do placebo, uma substância que não tem
efeito terapêutico algum.
Uma coisa que está bem clara para os especialistas, porém, é o risco de
overdose: esse medicamento é a principal causa de falência do fígado em países
como EUA e Reino Unido (veja dados abaixo), o que gerou alertas de várias
entidades de saúde nos últimos anos.
Por trás desse cenário, está a alta disponibilidade dos comprimidos e a
falta de orientações sobre os limites de consumo, como você vai entender ao
longo desta reportagem.
A BBC News Brasil entrou em contato com a Johnson & Johnson (fabricante
do Tylenol, um dos remédios com paracetamol mais populares) e com a Associação
Brasileira da Indústria de Produtos para o Autocuidado em Saúde (Acessa), mas
não foram enviadas respostas até a publicação desta reportagem.
Já a Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) e a
Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma) disseram que, por
diretrizes internas, não fazem comentários sobre questões envolvendo
moléculas/medicamentos específicos.
O paracetamol foi sintetizado no final do século 19. Os estudos pioneiros
com essa molécula foram publicados pelo químico alemão Joseph von Mering em
1893.
Mas a substância ficou restrita às pesquisas pelas seis décadas seguintes.
Ela só estreou nas farmácias de Estados Unidos e Austrália a partir dos anos
1950, já com o nome comercial que a tornaria mundialmente famosa: Tylenol.
Nos EUA, aliás, esse princípio ativo é conhecido por outro nome:
acetaminofeno.
No Brasil, ele está disponível desde os anos 1970.
E, mesmo passadas mais de seis décadas do lançamento, até hoje não se
conhece o mecanismo de ação desse remédio — em outras palavras, como ele age no
corpo para reduzir a dor ou baixar a febre.
“O mecanismo de ação do paracetamol ainda não foi completamente
esclarecido”, diz o médico Philip Conaghan, professor de Medicina
Musculoesquelética da Universidade de Leeds, no Reino Unido.
“É provável que ele tenha algum efeito na forma como nosso corpo ‘entende’ a
dor no sistema nervoso central e no cérebro, além de provavelmente agir em regiões
periféricas onde há inflamação”, detalha ele.
Acredita-se que o paracetamol interfira em ações de enzimas conhecidas como
ciclooxigenase, ou COX na sigla em inglês, relacionadas à sensação dolorosa e
ao aumento da temperatura corporal. Alguns estudos também observaram uma ação
da droga em neurotransmissores e vias cerebrais, o que traria um efeito
analgésico.
Mas, até o momento, não existe um consenso entre os especialistas sobre qual ou quais os efeitos exatos desse remédio pelo corpo para que se obtenha os resultados de melhora da dor ou redução da temperatura corporal.
Como citado no início da reportagem, o paracetamol está disponível livremente nas drogarias e pode ser comprado diretamente pelo consumidor, sem necessidade de receita médica.
Ele aparece tanto com nomes comerciais — Tylenol, por exemplo — quanto em
genéricos, além de ser adicionado à composição de diversos medicamentos junto
de outros princípios ativos.
A Food and Drug Administration (FDA), a agência regulatória dos Estados
Unidos, calcula que o paracetamol esteja na fórmula de mais de 600 produtos
farmacêuticos diferentes.
No Brasil, o paracetamol sempre aparece no topo da lista de remédios isentos
de prescrição mais vendidos — seja como molécula única ou conjugada com outros
fármacos.
Uma lista publicada periodicamente pela Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa) com os 263 medicamentos isentos de prescrição mais
comercializados do país revela que o paracetamol aparece em 23 das opções
farmacológicas com alta popularidade.
O que dizem as evidências
Mas, afinal, com tamanho sucesso comercial, o paracetamol realmente cumpre
aquilo que promete — diminuir febre e dor?
O FDA aponta em seu site oficial que o paracetamol é uma opção para o
tratamento desses dois incômodos com intensidades leve a moderada.
Mas evidências disponíveis até o momento variam bastante, principalmente
quando são avaliados diferentes incômodos que afligem o corpo.
O Instituto Cochrane, que se dedica a revisar as evidências disponíveis
sobre diversos tratamentos, publicou vários trabalhos a respeito da eficácia do
paracetamol.
A análise dos especialistas, que leva em conta os estudos publicados até
aquele momento, revelou que esse medicamento não é superior ao placebo
(substância sem efeito terapêutico) para tratar dores na região lombar.
Os resultados também não foram positivos para os casos de incômodos físicos
relacionados ao tratamento do câncer.
Já para lidar com artrite no joelho ou no quadril, o efeito positivo foi
considerado “pequeno” pelos autores dos artigos.
O paracetamol também mostrou algum benefício, mesmo que mínimo, no alívio da
enxaqueca aguda e das dores pós-parto e pós-cirúrgicas.
Conaghan, que publicou alguns estudos sobre o uso desse fármaco no
tratamento da osteoartrite, classifica as evidências como “pequenas” e “não
muito boas”. Mas ele diz entender porque o paracetamol continua popular até os
dias de hoje.
“Primeiro, há um histórico de uso, o que faz as pessoas se sentirem
confortáveis em tomar esses comprimidos. Segundo, a indicação de tratamentos
com o paracetamol é abrangente, e vai desde dores musculoesqueléticas até
cólicas menstruais”, lista o médico.
“Terceiro, falamos de uma opção barata e amplamente disponível ao consumidor. E, em quarto lugar, não existem muitas outras opções para lidar com esses sintomas”, complementa ele.
Com resultados tão variados, a principal orientação é sempre buscar a
avaliação de um profissional da saúde — principalmente se a dor não vai embora
ou piora depois de dois ou três dias.
A partir da avaliação e do diagnóstico, é essencial seguir à risca o
tratamento prescrito para se livrar dos incômodos.
Risco de eventos adversos
Mas e a segurança? Será que o paracetamol pode provocar efeitos colaterais
mais graves?
O problema aqui está na dosagem: as agências de saúde estipulam um limite de
4 gramas (ou 4 mil miligramas) por dia para os adultos. Em crianças de 2 a 11
anos, a dose de paracetamol depende do peso corporal (são de 55 a 75 mg por
quilo em um dia). Já abaixo dos 2 anos, é sempre necessário consultar o médico
antes de dar o remédio.
Como os comprimidos comumente trazem 500 miligramas ou 1 grama desse
princípio ativo, isso significa que um adulto não pode ultrapassar as quatro ou
oito unidades (a depender da dosagem) a cada 24 horas.
Mas a história é mais complicada que parece, pois muitos remédios trazem o
paracetamol na composição junto de outras substâncias — com isso, uma pessoa
que está gripada ou resfriada, por exemplo, acaba ingerindo diversos fármacos
para lidar com os sintomas (dor, febre, nariz entupido…) e pode ultrapassar sem
querer esse limite.
O principal problema aqui acontece no fígado, responsável por metabolizar o
fármaco. Cerca de 5% do remédio se transforma em quinoneimina, uma substância
tóxica para o corpo.
Em pequenas quantidades (abaixo desse limite de 4 gramas de paracetamol), o
fígado consegue neutralizar o perigo. Porém, quando há muita quinoneimina, o
órgão entra em parafuso e deixa de funcionar como o esperado.
Isso, por sua vez, gera um quadro de falência hepática aguda, que não raro
demanda internação e transplante, além de estar relacionado ao risco aumentado
de morte.
Segundo a FDA, as overdoses de paracetamol foram a principal causa de
falência hepática aguda nos Estados Unidos entre 1998 e 2003. Em 48% dos casos,
a overdose foi acidental, pois as vítimas sequer sabiam que tinham ultrapassado
o limite diário.
Um estudo de 2007 do Centro de Controle e Prevenção de Doenças americano
estima que a overdose por esse medicamento leva a 56 mil visitas ao
pronto-socorro, 26 mil hospitalizações e 458 mortes por ano.
Outros levantamentos apontam que o paracetamol é a causa de falência
hepática em até 45% dos casos registrados nos EUA e 60% dos episódios do tipo
que ocorrem no Reino Unido. Não há levantamento semelhante para o Brasil.
Todos esses números exigiram mudanças nas regulamentações sobre o
paracetamol. Desde 2011, a FDA limitou a dosagem do remédio a 325 mg por
comprimido — o que reduziu as hospitalizações nos anos seguintes, segundo um
estudo da Universidade do Alabama, nos EUA, publicado em 2023.
No Brasil, a Anvisa já publicou diversos alertas sobre o consumo indiscriminado
do paracetamol e os efeitos disso na saúde.
“O uso do medicamento deve ser feito com cautela, sempre observando a dose
máxima diária e o intervalo entre as doses, conforme as recomendações contidas
na bula, para cada faixa etária”, orienta a agência em comunicado de 2021.
Efeitos na sociedade
Também é curioso notar que o paracetamol, com mais de um século de história
e alguns mistérios persistentes, ainda é capaz de surpreender os cientistas.
Exemplo disso é o trabalho feito pelo psicólogo Dominik Mischkowski, da
Universidade de Ohio, nos Estados Unidos.
Num estudo de 2019, ele dividiu voluntários em dois grupos. O primeiro tomou
paracetamol, e o segundo engoliu comprimidos sem nenhum efeito terapêutico.
Depois, todos leram uma história inspiradora e tinham que reagir a ela.
Os participantes que tomaram paracetamol tinham uma habilidade reduzida de
sentir empatia, ou de se colocar no lugar do personagem da história. E isso
eventualmente teria implicações na forma como as pessoas interagem em
diferentes contextos sociais, aponta o cientista.
“Se interfiro em determinados circuitos neurais com uma droga como o
paracetamol, por exemplo, posso acabar afetando outros aspectos que chamamos de
emoções sociais, ou comportamentos sociais, sobre os quais inicialmente nem
pensávamos. E isso, quem sabe, pode ser uma espécie de efeito colateral social
dessas drogas", diz Mischkowski.
O próprio psicólogo pondera que os resultados, apesar de interessantes, são
experimentais e não refletem a realidade, que é muito mais intrincada e cheia
de variáveis do que um experimento controlado em laboratório.
“Quando as pessoas tomam remédios para dor, há muitos processos complexos
envolvidos sobre os quais não entendemos. Então quero ser muito cuidadoso sobre
o nosso achado, pois não sabemos ainda os detalhes sobre os efeitos do consumo
[do paracetamol] na sociedade”, explica ele.
“Então, se você está com dor e precisa de tratamento, deve sempre continuar
a tomar os remédios como paracetamol, porque isso é importante. A dor é uma das
condições mais impactantes da atualidade", complementa Mischkowski.
Já para Conaghan, o uso massivo de remédios para a dor, como o paracetamol,
ajuda a entender como nossa sociedade se modificou nas últimas décadas.
"Suspeito que muito de nossa crença nos remédios começou após a Segunda
Guerra Mundial, quando os antibióticos se mostraram tão bem sucedidos. Até
então, acredito que meus avós não tinham tanta confiança assim nos
comprimidos”, opina o médico.
"E as intervenções para tratar a dor podem levar um certo tempo e
esforço para surtir resultado. A dor no joelho, por exemplo: nós sabemos que
alongamentos musculares são muito efetivos, mas vai demorar pelo menos duas ou
três semanas de exercícios diários antes de você notar qualquer benefício.”
“Então, acredito que esse imediatismo dos remédios é outra coisa que nos faz
procurá-los tanto. Talvez essa crença cultural nos medicamentos e a necessidade
de alívio imediato para a dor sejam algumas das razões para tamanha
popularidade do paracetamol", conclui ele.
Créditos: BBC.