segunda-feira, 17 de novembro de 2025

"ESCÁRNIO DIÁRIO: A MEDIOCRIDADE OFICIALIZADA E MEDALHADA POR UM GOVERNO

17 de novembro de 2025 - 2 minutos para saber

Todo dia o Brasil acorda com um novo capítulo da série “Como transformar o ridículo em política pública”. O episódio de hoje: medalhas de “mérito educativo” distribuídas como brinde de latinha para figuras cuja contribuição é tão notável que só pode ser vista com microscópio — daqueles que nem escola pública tem mais.

O governo resolveu que Janja, Moraes, Motta, Gil do Vigor e Felipe Neto são agora referências educacionais. Sim: referências. Pessoas cujo “serviço excepcional à educação” é tão evidente que ninguém consegue explicar qual é. É quase poético — se não fosse trágico.
É como se o Ministério da Educação tivesse desistido de vez de levar educação a sério. Professores que passam a vida em sala de aula, alfabetizando, pesquisando, salvando crianças do analfabetismo funcional? Ignorados. Gente que realmente move a educação? Esquecida. Mas influenciadores digitais, celebridades de ocasião e aliados políticos recebem medalhas por nada. Absolutamente nada, a não ser que postar vídeos imbecis, dar opiniões rasas, destruir a língua portuguesa (alô, Janja) e gravar dancinhas agora virou “serviço excepcional”.
E o mais triste é que isso não surpreende mais ninguém — virou rotina. É mais um escárnio diário, mais uma agressão ao mérito, à lógica e à inteligência do povo. No Brasil, honrarias não premiam trabalho: premiam alinhamento político. A cultura do mérito morreu; a cultura do agrado floresceu.
E esse descompasso não fica restrito à educação. Na cultura, a perversão é a mesma — ou pior. Como essa gente pode ser premiada por serviços “excepcionais” à cultura quando, na prática, presta um desserviço diário a ela? Enquanto isso, quem trabalha arduamente pela cultura — escritores, professores, blogueiros, pesquisadores, artistas que carregam a língua e a memória nas costas — é empurrado para o segundo plano. E não por falta de talento, mas por falta de militância.
Se você não grita as palavras certas, se não repete o mantra político do grupo certo, se não exibe sua carteirinha ideológica, você simplesmente não existe. Sei bem como é isto, porque nao sou militante de ninguém. Escrevo obras profundas, fascinantes, envolventes — no mesmo tom dos textos diários que milhares leem gratuitamente aqui todos os dias. Isto não seria um serviço voluntário de excelência?E mesmo assim, por não ser partidário, por não vestir a fantasia política exigida, o destino é um só: o desprezo.
Não falo de prêmios — estes nunca significaram nada para mim. As únicas duas premiações que recebi, sequer fui buscar, pois nunca acreditei — e ainda não acredito — nesse tipo de reconhecimento encomendado. Mas falo do que realmente sustenta a cultura: apoio. Visibilidade. Vitrine. Recursos. Acesso. E isso, hoje, só existe para quem o sistema escolhe. Basta olhar ao redor: bobagens viram best-sellers, imbecis arrogantes viram palestrantes milionários, mentirosos viram gurus intelectuais, enquanto obras realmente admiráveis são ignoradas porque o público só consome aquilo que a mídia decide que é bom.
Senti (e ainda sinto) isso na pele. Todas as vezes em que fui ao Jô, minhas vendas dispararam. Não porque descobriram meu talento — ele estava lá antes — mas porque apareci na televisão. Gente que me conhecia há anos e nunca comprou nada meu corria para adquirir um livro apenas porque o Jô elogiava é recomendava. É assim que o Brasil consome cultura: não pelo valor, mas pela bênção midiática. Vejo isto aqui todos os dias. Por mais que inúmeros leitores elogiam e divulgam meus livros, menos de 1% consome, porque só tem interesse no que é de graça ou no que o cara da TV ou do podcast falou pra ele que é bom.
E assim caminha a humanidade — ou pelo menos a parte dela que anda para trás. Confundindo fama com mérito, exposição com importância, barulho com conteúdo. Triste sina a do escritor: criar mundos, iluminar consciências e, ainda assim, depender de um estúpido holofote para existir.
Se isso é mérito educativo e cultural, então até Paulo Freire — que já foi usado e reinterpretado de todas as formas possíveis — deve estar olhando lá de cima, balançando a cabeça e dizendo: “Errado não está…”, com o mesmo ar resignado de quem vê uma criança comendo tinta e decide não desperdiçar saliva.
Porque o Brasil está dominado — não pela corrupção, mas pela mediocridade oficializada. E agora também medalhada.