quarta-feira, 26 de novembro de 2025

ZYB2: ZÉ PICUÁ, UM GÊNIO QUE O BRASIL ESQUECEU

26 de novembro de 2025 - 2 min para saber



Zé Picuá é um artista de importância tal que qualquer homenagem a ele feita será insuficiente: poucos no rádio e televisão brasileiros com a força de comunicação de nosso Sebastião Rodrigues, o Zé Picuá. Criativo, bem humorado, espirituoso, nunca faltava ao seu compromisso com milhares de ouvintes em todos os cantos do país.; fazia dois programas por dia, "Alma Sertaneja", às 9h00 e "Sertão em Festa", 15h00. Às quintas-feiras, nos glamurosos tempos do "Rádio Variedades B2", apresentava no palco da emissora, "O Pagode do Zé Picuá".
De carreira longeva, tinha por dom uma palavra simples e objetiva, que beirava a genialidade. Norte americano fosse, teria ficado milionário. Nem precisamos ir tão longe... se tino financeiro tivesse, milionário teria ficado aqui mesmo, no Brasil, a exemplo do sanfoneiro Zé Béttio, que chegou muito depois.
Eu me encontrava sempre com ele nos anos 60, 70, época em que tinha por hábito visitar quase diariamente meus amigos locutores da ZYB2: Silas, Afrânio de Paula, Nilson Lemos, Otacílio Viana, Ismail Teixeira, Wellington Venga, Joel Salles, os técnicos Evandro Vinícius e Lázaro Silva. O maestro Cecílio Guilherme Fernandez tinha o mesmo costume, e passávamos boa parte da vida em conversas preguiçosas na sala do Silas Sampaio Moraes, usufruindo do prosa boa e do humor fino do diretor da emissora.
Zé Picuá chegava na rádio invariavelmente quietinho e pontual para apresentar seus programas. Falava pouquíssimo. Tímido, quase não ria. Todavia, era só o Lazinho, técnico de som, abrir o microfone e Zé PIcuá se transfigurava: loquaz, irreverente, brincalhão... e respeitoso, como é da índole caipira. Voz agradável, persuasiva, dava água na boca quando, por exemplo, ele falava da linguiça, do paio, do lombinho de porco que o Frigorífico Santa Cruz vendia para a feijoada.
Zé Picuá Inventou um português muito dele, que me atrevo a batizar de zépicuês. Programinha era 'polegaminha'; carnaval = carnavial; vocês = vacês; satisfação = sustifação; amanhã = aminhã. Ficava assim "Polegaminha Alma Sertaneja, de vacês pra vacês com sustifação". Ou então: "Polegaminha Sertão em Festa, uma festa diária para quem gosta de música sertaneja". "O Palácio do Lar informa a hora certa - em Varginha, 11 da manhã, em riba do risco". Tinha também bordões e interjeições personalíssimas: Este mundo de meu deus o que é isso... Êêê marvado!
Na política, poderia ter sido o que quisesse: vereador, prefeito, deputado; amado, popularíssimo entre as pessoas simples, ouvintes cativos. E não só em Varginha, mas, em boa parte do país, onde as ondas médias e curtas da B2 alcançassem. Cartas de devotados fãs abarrotavam do teto ao assoalho o depósito da emissora. Do potente microfonão de mesa, "seu' Zé mandava lembranças e abraços para ouvintes do Paraná, Goiás, Mato Grosso, Rio, São Paulo, e aonde chegasse a voz dele nas intermináveis terras mineiras. Dava notícias de aniversários, mortes, casamentos, batizados, bebês recém-nascidos - e muitas vezes, de gente que tinha saído da mesa de operação e estava passando bem. Ouvinte do Zé Picuá não precisava pagar telefonema interurbano para mandar notícia.
Zé Picuá foi pioneiríssimo no rádio sertanejo. As emissoras cariocas, Rádio Nacional, Globo, Tamoio, Tupi, que detinham a hegemonia nas décadas de 50, 60 franziam o nariz para a moda de viola, só queriam saber de samba, samba-canção, algum baião, marchinhas carnavalescas, tangos argentinos, boleros em espanhol. Música de caipira, matuto, capiau, barnabé eram coisas do interior de Minas, São Paulo, Goiás, Paraná. No Rio Grande do Sul predominava Teixeirinha, os xotes, as rancheiras.
Zé Picuá reinava soberano e absoluto nos domínios da canção idolatrada pelo público rural. Os endinheirados fazendeiros, senhores de terras, reis do gado, barões do café, assim como seus camaradas, seus colonos, recebiam os violeiros com foguetório e festas de arromba; algumas duplas, com o tempo, ficaram milionárias, compraram fazendas, tinham aviões.
Pelos estúdios da ZYB2 transitavam ilustres visitantes em carne e osso, ídolos das multidões; vinham tomar a bênção do grande comunicador: Tonico e Tinoco, Cascatinha e Inhana, Liu e Léo, Pedro Bento e Zé da Estrada, Capitão Furtado, Tião Carreiro e Pardinho, Zico e Zeca, João Pacífico, Irmãs Galvão, Trio Parada Dura, Tibagi e Miltinho, Xavante e Xavantinho...
Época dourada da boa música raiz, que minha querida amiga Inezita Barroso, com muito orgulho, denominava Música Caipira - a grande dama da moda de viola odiava o que ela chamava de SERTANOJO. Zé Picuá foi rei nesta época e é a este rei que venho aqui, hoje, reverenciar, terminando essa conversa do jeito que começamos:
Zé Picuá é um artista de importância tal que qualquer homenagem a ele feita será insuficiente: poucos no rádio e televisão brasileiros tem, tiveram ou terão a força de comunicação de nosso Sebastião Rodrigues, o Zé Picuá.